Espetacularização midiática amplia riscos de desastres, afirma professora da USP

A jornalista e professora do Departamento de Saúde Ambiental da USP (Universidade de São Paulo), Gabriela Marques Di Giulio, acredita que a espetacularização promovida pela mídia na cobertura de desastres piora a situação das pessoas afetadas. A pesquisadora trabalha com o conceito de “amplificação social do risco”, que pensa no impacto de estigmas construídos pela mídia.

Gabriela Marques foi uma das palestrantes da terceira mesa temática do EICA (Encontro Interdisciplinar de Comunicação Ambiental), “A comunicação ambiental na prevenção dos riscos”. Durante o espaço, ela teve a oportunidade de apresentar os resultados de suas pesquisas, como a tese de mestrado sobre contaminação com chumbo no município de Adrianópolis, no Paraná.

Di Giulio estudou a repercussão das informações sobre contaminação por chumbo nos moradores do município paranaense. A primeira confirmação da contaminação ocorreu em 2002, depois de um estudo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) comprovar que as crianças de alguns bairros possuíam um índice de chumbo no sangue acima do recomendável. A anormalidade era consequência dos rejeitos da mineradora Plumbum, que atuou no município entre 1930 e 1995.

De acordo com a professora, a imprensa teve um papel fundamental para dar visibilidade ao desastre e pressionar os responsáveis. No entanto, a divulgação baseada na “dramaticidade” e espetacularização – no caso de Adrianópolis – trouxe efeitos devastadores para as pessoas. O tom alarmante é uma justificativa para a própria circulação das notícias, diz.

Conforme o caso de Adrianópolis era noticiado, a população do município, que tinha a agropecuária como uma fonte de renda, enfrentou dificuldades para se manter ativa economicamente. Segundo a professora, imóveis e terrenos na região perderam valor e os mais jovens não conseguiam encontrar emprego em cidades próximas. A cidade “passa a ser rotulada como a cidade do chumbo”.

Em meio à pesquisa de mestrado, Gabriela Marques percebeu que a população de Adrianópolis se tornou apática quanto a estudos porque a realidade dos moradores não mudou ao longo dos anos. Além disso, as​ pessoas não confiam mais no poder público, já que a situação que enfrentam é decorrência de descaso dos agentes governamentais. “O que permitiu chegar a essa situação?”.

Reflexo da sociedade

Para a professora Gabriela Marques Di Giulio, a cobertura midiática sobre desastres e meio ambiente é consequência da noção que a sociedade tem desses temas. Uma das problemáticas, segundo a pesquisadora, é a dissociação de sociedade e natureza. Isso é consequência da ideia de desenvolvimento e de modernização que criamos.

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Jornalista Gabriela Marques Di Giulio em palestra no EICA

O grande desafio, diz ela, é refazer essa conexão para que as pessoas entendam o impacto das questões ambientais no cotidiano. Essa reflexão, afirma Di Giulio, precisa ser pauta da mídia e de outras instituições. “Enquanto isso ficar no plano global, remoto, lá no tempo, lá na frente, será muito difícil fazer as conexões na vida das pessoas”.

Para reverter a situação, a professora estimula a reformulação do conceito de meio ambiente que alunos da graduação possuem. Nas primeiras aulas, ela pergunta o que é natureza para os estudantes e a maioria das respostas se restringe a algo que está distante da realidade deles, como florestas.

Como as pessoas não conseguem conectar sociedade e natureza, afirma, fica mais difícil quando não há visibilidade de casos do tipo. Para a pesquisadora, é preciso “associar mais quais possíveis causas e efeitos das mudanças climáticas com o cotidiano”.

De acordo com Di Giulio, a divulgação das políticas públicas de mobilidade do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (2013-2016) é um exemplo negativo de comunicação ambiental. Para ela, a prefeitura não pensou no impacto dessas políticas para as questões climáticas, já que promover o uso do transporte coletivo e bicicletas em detrimento de veículos privados reduz a emissão de gases do efeito estufa.

Naturalização de desastres

As discussões na terceira mesa temática também incluíram a naturalização de desastres – como os período de estiagem no Nordeste e a crise hídrica em São Paulo. Para Di Giulio, esse processo é prejudicial para o público compreender as problemáticas e desvia do foco de questões ambientais.

No auge da crise hídrica em São Paulo, Gabriela Marques concluiu que houve uma tentativa da mídia naturalizar o problema. Enquanto a cobertura afirmava que a causa da crise era a maior estiagem que o estado enfrentava, o problema, na verdade, tinha mais a ver com gerenciamento de recursos hídricos, afirma ela.

Segundo a pesquisadora, a crise hídrica demanda um alto teor de complexidade para entender a relação com eventos extremos e, principalmente, com o gerenciamento de recursos hídricos. “É preciso rever as formas de gestão, de gerenciamento da água e de consumo”, diz.

A principal tarefa da mídia, declara ela, é sensibilizar as pessoas quanto aos desastres. É preciso apresentar elementos para incentivar a mobilização das pessoas nos processos de decisão que afetam a vida ​delas. “Se a gente alcança, é outra coisa (…) É isso que nos move”.

Reportagem para o 3° Encontro Interdisciplinar de Comunicação Ambiental (EICA) – junho, 2017.

Fotos: Felipe Goettenauer.

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