Favela é reprodução ampliada da “Casa Grande & Senzala”, diz geógrafo

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Apresentação do geógrafo Timo Bartholl no EICA

O geógrafo alemão e professor do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Timo Bartholl acredita que regiões periféricas só vão acabar quando relações de poder e de subordinação se desfazerem nas cidades. Bartholl, que participou da mesa temática “Percepções de risco e vulnerabilidades no meio urbano” do 3° EICA (Encontro Interdisciplinar de Comunicação Ambiental), comparou a relação entre regiões periféricas e centrais das cidades à lógica da casa grande e senzala, em alusão à obra de Gilberto Freyre.

Durante a palestra “Como tirar riscos e vulnerabilidades das invisibilidades?”, Bartholl​ classificou as regiões periféricas das cidades como territórios de resistência e em movimento. Ainda para o professor, as favelas são espaço de luta e opressão ao mesmo tempo, uma vez que os moradores constroem uma identidade num ambiente de vulnerabilidade.

A periferia não tem a ver com posição geográfica, mas com relações de poder, afirma o geógrafo. Locais longe dos centros das cidades podem ser dominados por classes mais ricas, assim como locais mais próximos aos centros podem reunir classes mais pobres. Bartholl é um crítico da construção de conjuntos habitacionais populares que retiram moradores de suas comunidades de origem. “Se você diz que isso resolve os problemas, você fetichiza o espaço”, diz.

Bartholl usa como exemplo o conjunto Cidade Alta, no Rio de Janeiro, que não pensou em soluções do ponto de vista econômico para as famílias. “Quando se constroem casas populares, tudo isso é desconsiderado”. Assim, os moradores tentam encontrar soluções para aumentar a renda por meio de reestruturação das casas.

Ao contrário dos conjuntos habitacionais de casas populares, a favela apresenta soluções econômicas para os moradores. Uma forma de adaptar os conjuntos à realidade das pessoas, diz o professor, é construir casas com espaços​ reservados para algum tipo de comercialização, como bares e salões de beleza.

A adaptação das casas populares realizada pelas famílias vindas de favelas causa um novo estigma: a sociedade acha que os moradores de regiões periféricas não são civilizados. Para o professor, mesmo com o acesso a uma nova casa num outro ponto da cidade, os moradores continuam com condições de vida desfavoráveis na escola, no trabalho e em outras áreas. “A favela é um território periférico porque as relações das pessoas na sociedade as colocam em situações periféricas”, declara.

Universidade

Na mesa temática do EICA, Timo Bartholl demonstrou ser um crítico do modelo de universidade e da ciência. Para o geógrafo, a ideia de meritocracia é reforçada na universidade na medida que os indivíduos concentram seus esforços apenas na carreira pessoal. Outra questão desfavorável indicada por ele tem a ver com as relações de poder e hierarquias presentes na universidade, características inerentes à instituição.

Ele estudou Geografia com foco na América Latina na Universidade Eberhard-Karls de Tübingen, na Alemanha, entre os anos de 1999 e 2003. No final da graduação, o pesquisador realizou um intercâmbio de um ano na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), período durante o qual morou no bairro de Copacabana.

Para se contrapor ao modelo de pesquisa tradicional, Timo queria iniciar uma “investigação militante”. O geógrafo desejava atuar em favor dos protagonistas investigados por ele, depois de assimilar uma “virada epistemológica e metodológica” na forma de fazer pesquisa científica.

De volta ao Brasil em 2008, Timo optou por morar na Comunidade da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Ao longo dos últimos nove anos, ele participa da construção dos movimentos sociais de base da comunidade e do projeto de coletivismo econômico “Roça Rio”, que produz cerveja artesanal. Segundo o professor, o projeto se transformou na única ou segunda fonte de renda dos integrantes.

Geógrafo alemão Timo Bartholl apresenta resultados do trabalho na Comunidade Maré

Vivência

Desde a mudança para a comunidade, os pesadelos do professor estão mais ligados à problemas da realidade: tiroteios e fugas da polícia. Pesadelos que ele não possuía enquanto morava na Alemanha e no ano do intercâmbio quando morou em Copacabana.

As pessoas que não vivenciam a realidade periférica não têm capacidade de entender a complexidade das relações, afirma Bartholl Quem não mora nessas áreas não consegue compreender como uma festa de aniversário pode acontecer enquanto há um velório ou um tiroteio ao lado. Caso um bairro de classe média do Rio de Janeiro vivenciasse o mesmo nível de tensão que há na Maré, ele não sobreviveria, afirma. “Todo mundo estaria depressivo”.

O primeiro motivo para a comunidade da Maré dar seguimento ao cotidiano é material, o que não quer dizer que os moradores se acostumem e ignorem os riscos. Ainda assim, a linha que divide a percepção e a falta de percepção sobre os riscos nas comunidades é tênue já que a comunidade precisa lidar com vários conflitos pessoais e coletivos diariamente, afirma o professor.

Um dos motivos que o pesquisador aponta para morar na comunidade é o desejo de “aprender a resistir”. Por considerar sua origem privilegiada, Bartholl acredita que não aprendeu o que é resistência. Outro motivo indicado pelo geógrafo é a relação de troca que constrói com a comunidade.

Polícia Militar

Os conflitos nas favelas do Rio de Janeiro geram ganhos materiais para a Polícia Militar pelo fato de policiais receberem propina do tráfico de drogas a fim de apoiar as ações dos traficantes, diz Timo Bartholl. “O caveirão [veículo usado pela PM do Rio de Janeiro] é alugado para o tráfico de drogas”.

Assim como as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), o Exército, a milícia e o tráfico, a PM é uma das forças que faz parte da “organização do controle territorial violento das periferias” do Rio de Janeiro, declara o geógrafo. Em alguns casos, afirma Bartholl, esses atores se unem para controlar a população das favelas, como quando a polícia pressiona o tráfico para reprimi-las.

Para o geógrafo, a introdução de policiais militares nas milícias pode ser muito atrativa, já que eles podem receber cerca de três vezes mais que o valor do salário e ter acesso ao porte ilegal de armas.

Na perspectiva do pesquisador, a PM é a primeira organização a violar as regras. “Se você me diz que a Polícia Militar do Rio de Janeiro seria capaz de fazer um policiamento, você tem que ser maluco ou não saber o que é a polícia”, enfatiza.

O tripé Mercado Capitalista, Democracia Representativa e Estados Nacionais não teria condições de construir um polícia que trataria todos os sujeitos igualmente, de acordo com o professor. “Esse tripé não cria condições para que as pessoas tenham condições iguais”.

A criação de uma polícia comunitária é desconsiderada por Bartholl. Ele não imagina que haverá um policiamento sem repressão no capitalismo. “A polícia está ali com o monopólio da violência para que essas regras sejam respeitadas por todos”.

Reportagem para o 3° Encontro Interdisciplinar de Comunicação Ambiental (EICA) – junho, 2017

Fotos: Felipe Goettenauer.

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