“Meu sonho era ser independente”, diz primeira conselheira tutelar transexual

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Primeira travesti conselheira tutelar do país, Silvânia Santos

A filha de Maria Genésia Santos, Silvânia, foi quem escreveu e leu ofícios para ela enquanto era a presidente da Associação de Moradores do Anchietão (AMA). Maria Genésia é analfabeta e Silvânia já concluiu o ensino médio. A filha era quase os “olhos” da mãe. Elas moram juntas numa das últimas casas da rua Professor Gileno de Freitas do loteamento Anchietão, no bairro Bugio. Graças ao contato constante com as causas da comunidade, Silvânia se interessou pela área de Serviço Social e se inscreveu no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) este ano para conseguir uma vaga na universidade.

Para chegar ao ensino superior, Silvânia sabe que precisa trilhar um caminho não convencional. Ela mora na periferia, é negra, deficiente e travesti. Nas cinco escolas pelas quais passou, a filha de Maria Genésia sabia que a travestilidade era a principal causa da opressão que sofria. “Eles só me respeitavam quando eu estava numa posição de liderança. Eu precisei conquistar o respeito das pessoas”. Mesmo com a perseguição dos alunos, a escola era um refúgio para Silvânia, que se sentia respeitada pelos professores, direção e funcionários das escolas por onde passou. Nelas, o interesse por trabalho comunitário se reproduzia quando havia feiras de ciências ou uma atividade extracurricular. No ensino médio, ela organizava os eventos e passeios do grêmio da Escola Estadual Monsenhor Carlos Camélio Costa.

A deficiência na mão direita fez com que Silvânia se tornasse conhecida como “Mãozinha”. Quando era adolescente, ela já reconhecia a travestilidade, mas não se tinha segura para assumi-la. As roupas femininas eram a sua principal via de escape. “Eu tinha que me montar de um personagem que não era eu”. Àquela época, a principal preocupação era se tornar independente emocional e financeiramente para que suportasse as represálias da família e sociedade.

A principal porta para a independência, para Mãozinha, era o trabalho. No entanto, a discriminação fez com que ela enfrentasse algumas barreiras. Aos 18 anos, ela conseguiu o primeiro emprego formal como recepcionista numa sede dos Correios. Lá, a gerente a acusava de assediar os clientes. Numa reunião, ela consentiu as acusações porque temia perder o emprego. “Eu sei que sou deficiente, negra, transexual. Você acha que as oportunidades se abriam muito? Aquele trabalho era minha meta”, conta. Mesmo depois da reunião, a perseguição não parou. Silvânia soube da demissão numa festa de réveillon após um colega de trabalho ligar para ela. “Eu fiquei muito triste porque não sabia o que ia acontecer daqui para lá”, desabafou.

O segundo emprego foi como agente de limpeza no Shopping Jardins, em Aracaju. Ela só conseguiu trabalhar por um dia, pois não foi bem recepcionada pelos chefes. “Eu senti a opressão no mesmo dia”. Para Silvânia, a péssima receptividade foi causada pela religiosidade dos superiores, funcionários da empresa que oferece o serviço de limpeza ao shopping, Multserv. “Eu acredito que religião atrapalha. Por isso, não tenho religião, só acredito em Deus”.

O terceiro emprego foi um dos mais longos — nove meses de duração, A demissão ocorreu numa situação delicada. Maria Genésia precisava dos cuidados da filha depois de passar por uma cirurgia. Por uma semana, Silvânia precisou se ausentar do trabalho na empresa Duchas Corona. Apesar das explicações e atestados médicos entregues, a empresa descontou boa parte do salário quinzenal dela, que só recebeu 100 reais no período. “Eu me senti muito humilhada”. Logo após, ela pediu demissão. Enquanto estava nessa empresa, Mãozinha não assumira a travestilidade, mas já se sentia mal por ir ao banheiro masculino. Ela precisava de algo no corpo que a fizesse recordar a própria feminilidade.

A quarta experiência profissional de Silvânia, aos 19 anos, foi como assistente financeira júnior numa transportadora. A farda masculina que era obrigada a usar foi uma das coisas que mais a incomodou na época. Como era bem acolhida pelos funcionários, ela podia utilizar um banheiro unissex dedicado apenas aos gerentes em vez do banheiro masculino. Mas, o fato de não se assumir travesti a inquietava. “Eu não aguentava mais. Olhava para o espelho e não me reconhecia (…) Tinha que assumir minha felicidade”.

Militância

O anseio por instrução a levou para o movimento LGBT. A fonte de inspiração de Silvânia foi a presidente da Associação Sergipana de Transexuais (Astra), Tatiana Araújo. “Ela era tudo o que eu queria ser: uma travesti e do movimento social”. Depois de se aproximar do movimento LGBT sergipano, a moradora da rua Gileno de Freitas se ligou ao Grupo de Homosseuxais do Bugio (GHB), que realizava o antigo Fest Gay do bairro nos anos 2000. A festa ficou paralisada por quatro anos porque os antigos organizadores se separaram. Em 2010, Silvânia a retomou e a mantém até hoje.

O antigo Fest Gay se tornou Parada LGBT do Bugio. Para Mãozinha, o modelo do Fest Gay fazia com que as pessoas LGBTs se integrassem à comunidade como motivo de chacota. O tema da última edição da parada foi “Você não precisa ser LGBT para lutar contra a LGBTfobia”. “A gente colocou ciclos de discussões, debates (…) As pessoas só sabiam o que era homofobia. Não sabiam o que era lesbofobia, transfobia etc.”.

Quando ainda se identificava como homem gay, Silvânia se candidatou ao Conselho Tutelar do distrito da Zona Norte de Aracaju, que abrange 11 bairros da cidade (Agamenon, Bugio, José Conrado de Araújo, Lamarão, Olaria, Soledade, São Carlos, Santos Dumont, Tamandaré, Veneza I e II), Ela e as duas amigas que faziam parte da chapa conquistaram o quarto lugar e o mandato de 2 anos com 876 votos. A eleição daquele ano serviu para uniformizar os conselhos tutelares do país.

A transição de Silvânia aconteceu nos dois anos do mandato. “O Conselho foi a garantia de que eu seria respeitada e continuaria trabalhando”. Já como travesti, Silvânia passou pela segunda eleição para conselheira tutelar do distrito da Zona Norte. Desta vez, sozinha. Alguns amigos sugeriram que, para vencer, ela precisaria abdicar da travestilidade. “Eu falei: não vou retroceder, não”. Na campanha, os comentários transfóbicos que ouvia diziam que o conselho não era lugar para travesti e que ela deveria estar na prostituição. Em 2015, Silvânia Santos se tornou a primeira conselheira tutelar travesti do país, com 387 votos.

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Silvânia durante a posse do segundo mandato com conselheira tutelar

Hoje, Mãozinha, aos 26 anos, compõe o grupo de 30 conselheiros tutelares da cidade e atende a maioria dos casos que envolvem LGBTfobia contra crianças e adolescentes. Algumas das ocorrências são de adolescentes agredidos pelos pais e que ficam em cárcere privado. Como a LGBTfobia não é crime no país, ela precisa enquadrar as agressões de outras formas. Os pais e as mães homofóbicos se sentem constrangidos pelo fato de uma travesti os atenderem no Conselho Tutelar. “Até hoje, eu gosto de estar na liderança”.

A sala de Silvânia contém cartazes sobre preconceito contra pessoas com deficiência, racismo e transfobia. “Eu sou uma militante dos Direitos Humanos. Então, eu vou falar dessas coisas”, afirma. Na entrada do Conselho, ela pregou um cartaz sobre o direito ao nome social, o que irritou um dos conselheiros.

Em processo de mudança do nome social, o decreto federal 8.727 e uma lei municipal garantem a Silvânia o uso do nome social no trabalho. A conquista veio depois dela solicitar o uso do nome à Secretaria de Assistência Social e Cidadania de Aracaju. “Eu só consegui isso com luta”, lembra.

No dia 4 de setembro deste ano, a filha de Maria Genésia vai lançar o projeto “Educação forma e trabalho transforma” contra a evasão de travestis e transexuais do ensino básico e para ampliar o acesso das pessoas trans ao mercado de trabalho. O projeto conta com o apoio da CUFA (Central Única das Favelas) e da ONG Sociedade Semear.

Colaboração para o site Bagaceira Talhada – agosto, 2016.

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