Paulo Freire ainda é um anônimo

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Governo de Sergipe foi contra as ideias de Paulo Freire

Há noves anos, Igor Maciel e Tiago Profiro, ambos com 18 anos, estudam na mesma escola no Bairro Industrial, zona norte de Aracaju. O local onde os meninos cursam o terceiro ano do ensino médio mudou de nome em janeiro de 2016. O Governo do Estado de Sergipe modificou o nome do antigo Colégio Estadual Castelo Branco para Colégio Estadual Professor Paulo Freire. A mudança aconteceu após a Comissão da Verdade Estadual — responsável por investigar violações aos direitos humanos durante o Regime Militar — pedir ao governo que retirasse o nome de presidentes ditadores de instituições da rede de ensino pública. Para Igor e Tiago, tanto Paulo Freire quanto Castelo Branco são figuras desconhecidas. O novo nome não significou que os alunos distinguissem o pedagogo e o ditador. “Seria bom se houvesse uma comparação entre os nomes Paulo Freire e Castelo Branco”, afirmou Igor.

A falta de diálogo entre a diretoria e os alunos fez com que os eles não entendessem o motivo da mudança. “De repente, a gente se deparou com uma placa na frente da escola”, disse Tiago. Durante o processo, o diretor do Colégio Estadual Professor Paulo Freire, Marcos Aurélio Silva, reuniu os alunos no auditório numa tentativa de explicar a homenagem ao pensador. Depois de nove meses, a perda da identidade do colégio é o principal problema que os alunos apontam. “Até hoje, a gente se distrai e fala Castelo Branco”, disse Tiago.

Para Karla da Piedade, também do terceiro ano do ensino médio, nenhum aluno gostou da mudança. Não se trata, diz ela, do fato do antigo nome ser de um ditador, mas do imaginário que os alunos e a comunidade possuíam da escola. “Todo mundo gostava da abreviação [CCB] (…) Minha mãe estudou aqui, minha tia estudou aqui. Eu estudo com os professores que ensinaram à minha mãe”. Em 2016, o antigo Castelo Branco completa 46 anos de funcionamento. Na turma de Karla, que estuda há 8 anos no Paulo Freire, as professoras de Português e História passaram um documentário sobre a vida do pedagogo para que os alunos o conhecessem. Mesmo assim, Karla acredita que a contextualização do papel histórico do pedagogo e do ex-presidente ditador e fica a desejar.

Segundo os alunos, a mudança foi tão repentina que alguns precisaram comprar outra farda em pouco tempo de uso. O modelo e as cores da farda da escola não foram modificados. Ainda hoje os 1.357 alunos do Colégio Paulo Freire podem usar a farda antiga ou nova. De acordo com o diretor Marcos Aurélio, que também é bacharel em Geografia, a Secretaria de Estado da Educação e o governo não consultaram a escola. Para ela, a recepção da comunidade foi mais positiva que outras escolas.

O antigo Colégio Costa e Silva, no bairro Getúlio Vargas, transformou-se em Colégio Estadual Professor João Costa — ex-professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Sergipe — por causa da mobilização dos estudantes para o novo nome coincidir com o antigo apelido — “Costão”. A referência cultural dos nomes dessas escolas, disse o diretor, é que se perdeu. “Algumas pessoas ainda questionam a mudança”. Segundo Aurélio, a escolha do nome Paulo Freire para a escola do Bairro Industrial foi adequada pelo fato do pedagogo ser uma figura que atuou regional e nacionalmente. A biblioteca da escola, ainda de acordo com o diretor, vai abrigar um memorial em homenagem ao pernambucano.

Medida do governo pode contrariar ideais de Freire

Apesar da mudança, o nome de Paulo Freire pode não corresponder à identidade da comunidade adjacente ao colégio no Bairro Industrial. Para a professora do Departamento de Educação da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Marizete Lucini, Paulo Freire é um nome que merece ser lembrado na educação. No entanto, diz ela, a forma como a mudança ocorreu contraria a “prática freudiana” pelo fato do autor defender a “diologicidade” — um método dialógico de ensino — e uma pedagogia situada de empoderamento.

O método dialógico, segundo a professora, é uma forma de selar o relacionamento entre os sujeitos. “O diálogo implica alguém que ouça e alguém que também fale”. Para Marizete, é preciso ouvir e pensar as pessoas como sujeitos históricos que vivenciam e experimentam uma determinada realidade. Por isso, impor um nome aos alunos e à comunidade do Bairro Industrial não seria uma forma justa de reconhecer a importância do pedagogo. “Acho que ele não gostaria de ter o nome em uma escola que os sujeitos que compõem essa escola não foram consultados”.

A professora Marizete Lucini já realizou pesquisas nos anos 2000 para compreender a influência do pensamento freiriano na educação desenvolvida em áreas rurais e hoje oferta disciplinas como Ensino de História e Educação de Jovens e Adultos para os alunos do curso de Pedagogia da UFS. Em uma de suas experiências, a professora observou a criação de uma escola chamada Paulo Freire num assentamento sem terra no sudoeste do Paraná. Os estudantes desta escola estudaram a vida do pedagogo e a representou numa peça, segundo a professora. “Eles sabiam quem era Paulo Freire, eles tinham prioridade para falar de Paulo Freire, eles tinham admiração pelo patrono da escola”.

O fato da disciplina de História no ensino básico não priorizar personagens brasileiros, de acordo com Marizete, é uma das causas da falta de reconhecimento de uma identidade nacional. “A História acaba negando o homem comum”. As narrativas dessa disciplina são mais eurocêntricas, concentram-se no grandes marcos europeus e privilegiam pouco os personagens brasileiros, afirma. As narrativas deveriam contemplar “todas as pessoas que tiveram um papel determinante e todas as pessoas comuns”, afirma.

Marizete também questiona a legitimidade dos nomes que são dados às escolas. Para ela, pessoas que tiveram um papel importante no desenvolvimento de uma escola e de uma comunidade são esquecidas. A terceira escola que teve o nome modificado em Aracaju, por exemplo, foi o antigo Colégio Estadual Pres. Emílio Garrastazu Médici que se tornou Colégio Estadual Nelson Mandela. O nome da escola é importante, afirma a professora, porque é a primeira maneira pela qual os estudantes se apropriam do local. “É a primeira identificação possível”. Quando os alunos não se reconhecem no nome, a “escola passa a ser do outro”, diz.

O distanciamento dos alunos, professores, pais e comunidades da escola pode causar abandono. “A escola não pertence a ninguém. É como se ela fosse dos professores, do Estado”, afirma. A causa dessa distanciamento, indica a professora, é a falta de valorização da memória e da história. A partir do momento que o aluno conhece a história do local onde estuda, uma relação de pertencimento pode ser criada.

Patrono

As homenagens a Paulo Freire já duram algum tempo em Sergipe. Em janeiro de 2012, ele se tornou Patrono da Educação Sergipana. A deputada estadual Ana Lúcia (PT) foi a responsável pelo projeto de Lei 7.382. Segundo a lei estadual, instituições de ensino podem desenvolver atividades relacionadas à obra de Freire na semana do dia 19 de setembro — data de nascimento do pensador. Segundo os alunos do Colégio Paulo Freire, nenhuma atividade relacionada à data de nascimento do pedagogo foi realizada. Se estivesse vivo, Freire completaria 95 anos. Ainda em 2012, a ex-presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei 12.612 que tornava-o Patrono da Educação Brasileira.

Porém, o reconhecimento à obra de Freire não é válido para algumas camadas da sociedade brasileira. Nos primeiros protestos contra a ex-presidente Dilma Rousseff em 2015, alguns manifestantes erguiam cartazes com frases como “basta de Paulo Freire” e o associavam a uma “doutrinação marxista”. Para a professora Marizete Lucini, esta é uma associação equivocada porque o autor nunca se denominou marxista. A principal inspiração das obras de Freira foi o existencialismo, afirma. Por outro lado. o perfil na página Wikipedia do autor consta o marxismo como uma de suas escolas. A contribuição do pensador ultrapassa a área da educação, segundo Marizete, e tange temas como a humanização. De acordo com outra professora do Departamento de Educação da UFS, Sônia Meira, Freire também não era marxista, mas existencialista. Uma das marcas do existencialismo de Freire está, para ela, no prefácio do livro “Pedagogia do Oprimido”, escrito em 1968 enquanto ele estava no exílio no Chile.

O principal livro de Freire — “Pedagogia do Oprimido” — só foi publicado no Brasil em 1974. Um levantamento do professor da London School of Economis Elliott Green na plataforma de leitura acadêmica Google Schoolar constatou que “Pedagogia do Oprimido” é a terceira obra mais citada em trabalhos de Ciências Humanas no mundo. A pesquisa registrou 72.359 citações à obra. O livro do pedagogo brasileiro só ficou atrás do número de citações do filósofo norte-americano Thomas Kuhn (81.311) e do sociólogo também norte-americano Everett Rogers (72.780).

De acordo com Marizete, a objeção às ideias de Freire resulta da interpretação de movimentos como o Escola Sem Partido. Depois de ler o conteúdo do site do projeto, a professora se diz assustada. O que mais choca, para ela, são frases que exigem a expulsão da obra do pedagogo pernambucano das escolas brasileiras. “O que a gente tem visto em movimentos mais fascistas que têm surgido, entre eles o Escola Sem Partido, é a homofobia, a violência, o combate à diversidade, a negação de direitos”. Ela diz não compreender as críticas ao autor, uma vez que ele não foi um guerreiro revolucionário, mas apenas pensou a educação. A professora Sônia Meire acredita que o projeto Escola Sem Partido almeja o controle da fala do educador. “Se você quiser matar uma sociedade, você mata pela fala”, afirma.

Método Paulo Freire representa um período histórico

O primeiro livro de Freire — “Educação e atualidade brasileira” — foi publicado em 1959 pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde foi professor. Por meio de projetos de extensão da UFPE, as primeiras experiências com o método Paulo Freire aconteceram em municípios do interior daquele estado na década de 1960. Freire reunia grupos de alunos para aplicar o método na alfabetização de jovens e adultos que viviam no campo. Assim como Freire, a professora Sônia Meire trabalhou com o método na educação de jovens e adultos que viviam em zonas rurais do interior da Bahia e Sergipe.

Segundo Sônia, o Método Paulo Freire não deve ser compreendido como um método de alfabetização, mas como um “caminho” para uma educação crítica. A principal diferença, para ela, é que o método freiriano seria capaz de ampliar o conhecimento do indivíduo. O método surgiu da necessidade de construir uma educação libertária que colabore com a liberdade do sujeito, afirma Sônia. Conforme o raciocínio do pedagogo, nós viveríamos numa sociedade que nos oprime e teríamos dificuldade de reconhecer o que nos oprime. Por isso, todo processo de educação, para Paulo Freire, deve problematizar a realidade.

A problematização da realidade, para Sônia, é a construção de perguntas sobre a existência de um grupo social. A partir das perguntas, os indivíduos construiriam respostas para solucionar os problemas. Círculo de cultura foi um dos conceitos criados por Freire que serviria para os membros de uma comunidade trocarem experiências. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. O resultado das conversas entre integrantes de uma comunidade criaria as “palavras-geradoras”, outro conceito-chave para compreender a obra do patrono da educação. Durante esse processo, métodos de silabação, diz a professora Sônia, tornam-se descartáveis porque as pessoas aprenderiam a escrever com o próprio ato da escrita.

Sônia Meira acredita que as teorias de Paulo Freire não são mais revolucionárias hoje, mas foram para a época da criação. “Ela não dá conta de pensar a revolução”. O conceito de cultura criado por Freire é, para Sônia, limitado porque não se baseia na realidade dos indivíduos, mas na subjetividade. Categorias como classe e trabalho não foram aprofundadas por Freire, afirma Sônia.

Na década de 1980, a professora Sônia Meire trabalhava com o Método Paulo Freire na militância, quando era aluna do curso de Pedagogia da UFS. Ela participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Sergipe. Os professores do curso naquela época, segundo ela, eram conservadores e quase não trabalhavam com as ideias de Freire. Uma das explicações para isso era a influência do Regime Militar no ensino superior brasileiro. Para Sônia, que concluiu a graduação em 1986, as universidades e as escolas não valorizam o pensamento freiriano como deveriam.

Para a professora Marizete Lucini, o método foi criado e aplicado para atender a um determinado período histórico na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Por isso, a replicação dos conceitos criados por ele — como palavra-geradora — não teria o mesmo êxito na EJA. “O método é historicamente situado”. Ainda assim, as ideias existencialistas de Freire servem para pensar o processo de educação, compreender e empoderar os sujeitos, afirma Marizete.

Reportagem para a disciplina de Laboratório em Jornalismo Impresso II – novembro, 2016.

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