Machismo exclui mulheres da Ciência

 

1-tZG_81owR24VY3sQWV6Vbw.jpeg
Para ser aceita nos laboratórios, a mulher precisa incorporar um perfil masculino

Nas Ciências Exatas, mulheres passam por “efeito tesoura” na graduação e pós-graduação

Alessandra foi a única aluna do curso de Engenharia Mecânica enquanto esteve na universidade. No primeiro dia de aula, um de seus professores disse que era melhor ela voltar para casa e ficar na cozinha porque, para ele, lugar de mulher era lá. Alessandra, no entanto, seguiu em frente para obter o diploma. Durante sua estadia na Universidade Federal do Ceará (UFC), ela teve uma única professora. Por causa dos constrangimentos que sofria fora e dentro da sala de aula, Alessandra precisou trocar as roupas coloridas por roupas de cor neutra, como branco, cinza e preto e pegava turmas nos cursos que possuíam mais mulheres, como os de Engenharia Civil e de Engenharia de Produção, ou mudava o percurso que fazia entre as didáticas do campus. Um dos professores parava a aula para vê-la passar pelo corredor.

Depois de quase oito anos para concluir o bacharelado, entre 1991 e 1999, Alessandra prosseguiu com o mestrado e doutorado. Na pós-graduação, porém, ela não deixou de ser intimidada pelo fato de ser mulher. No mestrado na UFC, um dos professores colocava obstáculos nas ideias que ela desejava pôr em prática. Já no doutorado, ela também teve desentendimentos com um professor que não aceitava suas decisões, proibia-a de ter acesso ao laboratório da universidade e de manusear os equipamentos sem o auxílio de um homem. “E ele falou exatamente com essas palavras: ‘Alessandra só pode ter acesso às máquinas se tiver um menino observando’”, afirma ela, que fez o doutorado na Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais.

Assim como Alessandra, única aluna no doutorado em Engenharia de Produção, os colegas ficavam constrangidos por causa da imagem que os professores construíam dela. “Se eu consegui alguma coisa, não foi porque eu fiz bem feito, mas foi porque eu sou mulher, porque eu sou bonita. Qualquer outra coisa, menos porque eu trabalhei direito”. Alessandra iniciou o doutorado em Engenharia Mecânica em 2003 e o finalizou em 2012. Ao longo da formação, ela ainda teve de lidar com o cargo das tarefas domésticas e da criação de um filho, que hoje tem 17 anos.

Se eu consegui alguma coisa, não foi porque eu fiz bem feito, mas foi porque eu sou mulher, porque eu sou bonita. Qualquer outra coisa, menos porque eu trabalhei direito” — Professora Alessandra de Azevedo

Alessandra de Azevedo é hoje professora do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coordenadora do projeto de extensão “Lugar De Mulher É Na Oficina — Quebrando Paradigmas”, que coloca alunas do curso em posições de liderança. Ela convive com mais duas professoras e nove professores no Departamento de Engenharia Mecânica da universidade, que foi criado no ano de 2007. A primeira turma do curso possuía duas alunas e 48 alunos. Dessas duas, apenas uma se formou. O ambiente com pouca participação feminina que Alessandra enfrentou na graduação na década de 1990 pouco se modificou.

De acordo com o censo 2011 do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), cerca de um terço das pessoas matriculadas em cursos de Engenharia no país era do sexo feminino. Por outro lado, o número de alunas no curso de Engenharia Mecânica da UFS não é tão diferente do que foi no início, há nove anos. São 41 alunas e 222 alunos matriculados.

Em trabalhos em grupo, os meninos tendem a colocar as meninas em tarefas de secretariado

Com o projeto “Lugar De Mulher É Na Oficina”, Alessandra decidiu atrair as meninas do curso para a área de especialização dela — soldagem. As 11 meninas que fazem parte do projeto criam protótipos de carros e oferecem minicursos sobre algumas áreas da engenharia para a comunidade. O projeto existe há quase dois anos e é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As garotas do projeto também trabalham com alunos do curso de Engenharia Mecânica. Segundo Alessandra, há uma tendência dos meninos colocarem as meninas em funções de secretariado nas atividades: “’Ela tem a letra mais legal, ela tem a letra melhor’”, diz ela a respeito da postura dos alunos. A docente tenta podar essas atitudes e, para inverter as funções, coloca os meninos do projeto para exercer as atividades que não envolvem esforço físico. Nesse tipo de função, a professora distribui as tarefas entre os mais robustos do grupo. Uma das deduções da professora é a respeito do desenvolvimento das alunas que, aos poucos, conseguem expor, argumentar e defender melhor suas ideias.

A professora Drª. Márcia Barbosa, coordenadora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que as mulheres passam por um “efeito tesoura” na área acadêmica, principalmente nas áreas de Ciências Biológicas, Exatas e da Natureza. Enquanto estava no mestrado multidisciplinar em Engenharia Mecânica e de Materiais na Universidade do Ceará, a professora Alessandra de Azevedo conviveu com mais três colegas. Ela foi a única aluna no doutorado em Minas Gerais e foi a única que desenvolveu projetos na área de soldagem nas duas etapas da pós-graduação.

MENINAS NA COMPUTAÇÃO

Patrícia Lima Soares, professora de Química do Colégio Estadual Atheneu Sergipense, engravidou durante a execução de um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq) e pela Petrobras. O ano era 2014 e Patrícia assegurou seu direito à licença maternidade. Assim, ela pôde pausar o projeto por dois meses. No entanto, caso a professora engravidasse um ano antes, o CNPq poderia não aceitar a licença maternidade, pois somente em 2013 o conselho garantiu esse direito às pesquisadoras financiadas.

Entre dezembro de 2013 e novembro de 2014, Patrícia liderou no Atheneu Sergipense o projeto “Meninas na Computação”, coordenado pela professora Drª. Maria Augusta Silveira Netto Nunes, docente do curso de Ciências da Computação da UFS. Patrícia orientou três alunas do ensino médio que desenvolveram projetos interdisciplinares com a linguagem de programação Scratch, desenvolvida pelo Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Quando cursava o ensino médio na antiga Escola Técnica (Instituto Federal de Sergipe) e a graduação na UFS, ela conviveu com muito mais homens do que com mulheres. Patrícia teve mais facilidade com as disciplinas da área de Ciências Exatas do que com as Ciências Humanas, pois o curso Técnico de Química que fez na antiga Escola Técnica priorizava disciplinas como Matemática, Física e Química.

No mestrado em Química que fez entre 2006 e 2009 na UFS, ela também teve de lidar com uma gravidez e pausar o projeto de pesquisa. Esse hiato a fez passar por alguns problemas para concluir os estudos. A professora do Atheneu também já precisou desistir de um concurso na UFS por conta do rendimento salarial que teria e dos índices de exigência de produção acadêmica. Um dos colaboradores do projeto Meninas na Computação foi o professor de Física da UFS, o Dr. Tiago Nery Ribeiro, casado com Patrícia.

Carolina Teodoro, Fernanda Lemos e Poala Eloá foram as alunas bolsistas do Atheneu que participaram do projeto. Em 2014, elas lideraram a turma do 2º ano do ensino médio da qual faziam parte e ajudaram a professora Patrícia na aplicação da linguagem de programação em sala de aula. Para Carolina Teodoro, aprovada no curso de Farmácia da UFS em 2016, a convivência com a professora Patrícia foi fundamental para escolher um curso superior. Ciências da Computação foi a segunda escolha dela no Sisu (Sistema de Seleção Unificada). Para a graduação, as meninas não optaram pelas Ciências da Computação, curso que tinha 81,2% dos alunos do sexo masculino em 2008, conforme o IBGE. Preferiram seguir nas áreas de Ciências Biológicas. No Atheneu Sergipense, elas tiveram contato apenas com professoras de Química. Para Patrícia Soares, isso foi um diferencial na formação das bolsistas, que se aproximaram da disciplina porque foram estimuladas e se espelharam nas professoras.

Para a criadora do projeto, a professora Maria Augusta Silveira, o Meninas na Computação, mesmo com o alcance e recursos limitados, seria uma das medidas para equiparar a relação de homens e mulheres no mercado de trabalho. O estigma e sexismo na área de Computação, diz a professora, contribuem para pensar que as mulheres não são capazes de se destacar na área e, na maioria das vezes, precisam se esforçar mais do que os homens. Segundo uma pesquisa da revista norte-americana Nature, as mulheres precisam demonstrar 2,5 vezes mais produtividade do que os homens para serem consideradas competitivas.

Maria Augusta convive com oito professoras e 26 professores no Departamento de Computação da Universidade. Ela pensou em criar o projeto e dar a ele um recorte de gênero enquanto participava de um programa de incentivo à ciência da Sociedade Brasileira de Computação, o “Almanaque para popularização de Ciências da Computação”. Segundo Maria Augusta, o número de mulheres na área de Ciências Exatas cai a cada ano, principalmente na área de Computação. Conforme o censo do IBGE de 2010, as mulheres representavam 25% dos profissionais da área de TI no Brasil.

ONDE ESTÃO AS CIENTISTAS?

No primeiro dia de aula, os alunos dos cursos de Matemática, Saneamento, Segurança do Trabalho e Eletrônica do Instituto Federal de Sergipe (IFS) recorrem à memória para citar nomes de mulheres cientistas. A maioria permanece calada enquanto alguns citam a polonesa Maria Curie, única ganhadora do prêmio Nobel em duas categorias distintas — Física e Química — e a única mulher a ganhá-lo duas vezes. É a partir desse exemplo que os alunos da professora de Português do IFS, Elza Ferreira Santos, desmistificam os estereótipos de gênero em sala de aula, embora a falta de exemplos de mulheres cientistas não seja acidental. Segundo o Instituto Unesco de Estatísticas, o público feminino soma 30% dos pesquisadores e ocupa 10% dos cargos de liderança em áreas científicas nas universidades e no setor privado em todo o mundo.

Na maioria das vezes, alunos têm dificuldade de citar nome de mulheres cientistas

O processo de exclusão da mulher na ciência se inicia no ensino médio. Até o ensino fundamental, diz Elza, a diferença entre as notas de meninos e meninas na Matemática é irrisória ou inexistente. Na maioria das edições da Prova Brasil, do Ministério de Educação, do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os meninos se destacam na Matemática e as meninas na área de leitura. Segundo Elza, a escola é responsável por esse resultado desarmonioso. Segundo uma pesquisa do National Bureau of Economic Research nos Estados Unidos, professores de matemática podem dar notas maiores para as meninas quando não sabem que elas são meninas.

“Você pega um livro de Física e não vê exemplos com mulheres, mas exemplos com homens” — Professora Elza Ferreira.

Um dos primeiros problemas é a falta de representatividade nos livros didáticos, afirma Elza: “Você pega um livro de Física e não vê exemplos com mulheres, mas exemplos com homens”. Ela ainda sinaliza que, entre o final do ensino fundamental e ensino médio, há poucas professoras nas áreas de Ciências Exatas, especialmente em Física — no Instituto, não há professoras dessa área. Para ela, há um processo de naturalização da capacidade de cognição masculina e de subestimação das habilidades que as meninas possuem em áreas de Ciências Exatas. “Os meninos se toleram a ficar horas e horas fazendo o mesmo exercício. As meninas normalmente são desencorajadas”, afirma.

“Os meninos se toleram a ficar horas e horas fazendo o mesmo exercício. As meninas normalmente são desencorajadas” — Professora Elza Ferreira.

Outro exemplo de exclusão das mulheres da ciência, segundo a professora do IFS, está ligado ao perfil de quem se dá bem com matemática, o qual se assemelha a um “gênio isolado”. Tal perfil vai de encontro aos valores de socialização que a sociedade impõe às mulheres: “Ela foi treinada para ser bacana, legal, gentil, agradável. Ela não foi criada para ser ‘CDF’”, diz. Além disso, o perfil de cientista determinado pela sociedade também é branco, heterossexual ou assexuado e de meia-idade, afirma a professora.

Na tese de doutorado As armas de Marte no espelho de Vênus — a marca de gênero em Ciências Biológicas, a pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Mulher (NIEM), Ângela Maria Freire de Lima Sousa, concluiu que as mulheres que se formaram na área de Ciências Biológicas na Universidade Federal da Bahia entre 1973 e 2000 incorporaram um perfil masculino. Uma pesquisa da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, constatou que físicos, químicos e biólogos tendem a ver os homens de maneira mais favorável que as mulheres, mesmo que eles possuam as mesmas qualificações que elas.

Devido às adversidades pelas quais as mulheres passam no ensino médio, muitas delas não têm condições de enfrentar cursos cuja principal matriz é a matemática. As áreas de Ciências Humanas e Ciências Sociais se tornam o principal antro das mulheres que optam pela academia. Isso se reflete também no mercado de trabalho, onde as mulheres são a maioria nos setores de serviço — áreas de saúde, educação, comércio e administração — e os homens, nos setores tecnológicos.

Segundo a professora coordenadora do Programa de Pós-graduação em Serviço Social da UFS e coordenadora da Executiva da Rede Feminista Norte, Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e Relações de Gênero (REDOR), Drª. Maria Helena Santana Cruz, essa segmentação é resultado dos processos de socialização que homens e mulheres vivenciam com base nos estereótipos de papel de gênero. Para Maria Helena, é a divisão sexual do trabalho que vai determinar em qual área se concentram homens e mulheres.

No livro Mapeando Diferenças de Gênero no Ensino Superior da Universidade Federal de Sergipe, a professora Maria Helena atribui a falta de participação e ascensão das mulheres na academia aos valores “androcêntricos” da ciência, ou seja, o uso indiscriminado do homem como parâmetro e padrão para resumir a sociedade e a comunidade científica.

Durante a pesquisa para o livro, a professora Maria Helena também constatou que o público feminino passa mais tempo para se especializar em uma área do que os homens e tem mais dificuldades de assumir cargos de chefia, o que é resultado da sobrecarga das atividades domésticas e familiares que são atribuídas às mulheres. O índice de mulheres que são responsáveis pelas atividades domésticas é de nove em cada dez e o de homens é de quatro em cada dez no Brasil, segundo o Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo) da Unicamp (Universidade de Campinas), que se baseou nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) entre 2001 e 2012. Isso, segundo Maria Helena, pode refletir na paridade de professores. Entre 2009 e 2010, a UFS, por exemplo, possuía 1.273 professores em três campi — 723 homens e 550 mulheres.

No Brasil, um dos maiores contrastes entre o número de pós-graduados está nas áreas de Engenharias. O número de homens com mestrado em Engenharia (4.226) no país é quase quatro vezes maior ao número de mulheres (1.323). Até janeiro de 2015, o país possuía 38.253 homens com mestrado e 44.391 mulheres mestres nas oito áreas cadastradas pelo CNPq — Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias e Linguística, Letras e Artes. Os dados fazem parte do banco de currículos Lattes do Conselho Nacional.

Enquanto as mulheres possuem mais diplomas de mestrado, os homens são a maioria dos pesquisadores com doutorado em. Segundo o CNPq, são 64.033 doutores e 56.976 doutoras. A discrepância entre o número de doutoras e doutores em Engenharia também permanece nesse estágio da pós-graduação. O país possui 8.431 doutores em nas áreas de Engenharia e 2.772 doutoras.

Além das atividades domésticas, as mulheres na universidade enfrentam as rotinas e exigências de produção científica para manter os financiadores e progredir na carreira. “Se a mulher quer ter uma vida familiar, ela não consegue o mesmo nível de desenvolvimento e dedicação intelectual [que o do homem], pois é muita sobrecarga. O homem sempre joga a carga para mulheres, mas a mulher joga para quem?”, diz a professora Maria Augusta Silveira, do Departamento de Computação. Até 2010, a maioria dos professores da UFS com doutorado era do sexo masculino (56%).

“Se a mulher quer ter uma vida familiar, ela não consegue o mesmo nível de desenvolvimento e dedicação intelectual [que o do homem], pois é muita sobrecarga. O homem sempre joga a carga para mulheres, mas a mulher joga para quem?” — Professora Maria Augusta Silveira

Maria Helena iniciou em 1992 as primeiras ações que criariam o Núcleo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares sobre a Mulher e Relações de Gênero (Nepimg), no Departamento de Serviço Social da UFS. Na década de 1990, a principal dificuldade dos trabalhos com temática de gênero no Brasil era conseguir financiamento. O primeiro projeto da professora com o recorte de gênero enviado ao CNPq foi rejeitado, porque não era prioridade do conselho. O projeto era sobre a relação dos docentes da UFS com o trabalho. O CNPq só começou a financiar e abrir editais para as discussões de gênero com a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), criada em 2003, no primeiro mandato do ex-presidente Lula.

Até outubro de 2015, a SPM possuía status de ministério e estava ligada à Presidência da República. Naquele mês, a SPM se uniu às secretarias de Direitos Humanos, de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) para criar o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos. Em 12 de maio de 2016, após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff por causa da admissibilidade do processo de impeachment no Senado, o presidente interino Michel Temer extinguiu esse ministério.

IDEOLOGIA DA FEMINILIDADE

Numa atividade com a turma do último período do curso de Eletrotécnica do IFS, os cinco alunos da turma da professora Elza Ferreira discutiam a possibilidade de realizar concursos em outros estados. As meninas da turma, por outro lado, não pretendiam seguir a carreira na universidade. Para ela, as meninas não foram encorajadas a se desafiarem nem a ousar. Elza conta ainda que o mercado de trabalho pode ser muito mais hostil para as mulheres do que para os homens. O público feminino que se forma em Engenharia, na maioria dos casos, recua do mercado de trabalho devido a uma aceitação maior na universidade.

A tese de doutorado de Maria Helena Santana Cruz fala da participação das mulheres nas indústrias extrativistas de Sergipe. Na década de 1990, os homens representavam 93% dos empregados, mesmo com o elevado nível de escolaridade das mulheres. Por causa da masculinização desses ambientes, elas não conseguiam progredir na carreira.

“Ela precisa tomar uma postura de mais agressiva, de mais firme”. A forma como a mulher se expressa no mercado de trabalho pode ser uma “faca de dois gumes” — Professora Elza Ferreira

O mercado e a estrutura social podem exigir a perda da postura feminina para que a mulher se torne igual entre os colegas de trabalho, indica Elza Ferreira. “Ela precisa tomar uma postura de mais agressiva, de mais firme”. A forma como a mulher se expressa no mercado de trabalho pode ser uma “faca de dois gumes”. Para a docente de Português, a mulher vai precisar viver com o conflito de se aproximar mais de uma figura masculina ou não e lidar com as piadas de conotação sexual. “No início do século XX, as mulheres não eram maciçamente professoras, e quando algumas começaram a se tornar, elas eram ou muito feias ou ‘solteironas’”. Um dos primeiros passos que podem mudar esse quadro de exclusão é promover debates sobre gênero e sobre a condição da mulher nos espaços de poder. “Nós precisamos de homens e mulheres feministas”, conclui Elza.

“Nós precisamos de homens e mulheres feministas” — Professora Elza Ferreira.

A escola é apenas um dos problemas para as garotas se inserirem na ciência e tecnologia. O primeiro impasse surge na família, que não legitima as escolhas das mulheres que optam pelas áreas tecnológicas. Os estereótipos de gênero são interiorizados por meio dos valores que se adquirem e se difundem na família, na escola e em outros espaços, segundo a professora Maria Helena Santana. Em ambientes masculinizados, as mulheres correm o risco de se apropriarem da própria masculinização para se sentir igual aos homens. “Muitas mulheres acham que para serem respeitadas, como no Direito, devem exercer o papel masculino”.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s