Homofobia e machismo no futebol sergipano  

Torcidas organizadas excluem mulheres e LGBTs

Encontrar comentários hostis a homossexuais nas redes sociais não é tarefa difícil nos perfis oficiais das duas principais torcidas organizados de Aracaju — Torcida Trovão Azul (TTA) e Torcida Esquadrão Colorado (TEC). Comentários como “Contra os gays , prevejo vitoria”, “Botar pocando nesses fio da peste desses roxinhos dadores de cu” e “us tec gay se caga” assolam algumas das publicações de torcidas quando se fala da rivalidade com os torcedores de outros clubes.

As manifestações preconceituosas não se restringem à Internet. Segundo os conselheiros da Torcida Jovem do Confiança, André Santos e Rodrigo Macêdo, o maior retrato da homofobia nas torcidas se expressa nas músicas e gritos de guerra. Para provocar rivais, basta inserir a palavra “gay” ou “bichinha” entre os insultos. “Já é no automático”, conta André. No caso da Torcida Jovem, as músicas e gritos de guerra foram inspirados em paródias da torcida do Santa Cruz Futebol Clube, de Pernambuco, e também reproduzem esse modelo.

Os conselheiros reconhecem que a prática se naturalizou nos estádios, principalmente quando os torcedores se encontram. “Os integrantes da minha torcida costumam provocar a torcida rival — a do Club Sportivo Sergipe -, conhecida por TEC, com a expressão ‘TEC gay’. A TEC, por sua vez, nos provoca com a expressão ‘jovem gay’”, diz Rodrigo.

A Torcida Jovem possui hoje entre 100 e 150 integrantes. Para Rodrigo, cada membro que entra já legitima preconceitos e estereótipos. Na maioria das vezes, esses membros são de bairros periféricos da Grande Aracaju, afirma. Ele acredita que um dos lugares que mais concentra machistas e homofóbicos “por metro quadrado” é uma torcida organizada.

Para reverter esse quadro, a Torcida Jovem do Confiança criou um conselho a fim de mobilizar ações sociais e retirar o conteúdo preconceituoso das músicas. Os conselheiros desejam envolver os membros da torcida em debates sobre machismo, homofobia e legalização da maconha. Rodrigo, que passou alguns anos longe da agremiação, afirma que vai ser difícil convencer “a galera”.

Mulher Macho

A exclusão de LGBTs do futebol ocorre também dentro do campo. Durante a Olimpíada do Rio de Janeiro 2016, a delegação de futebol feminino dos Estados Unidos ouviu gritos de “bicha” na partida do dia três de agosto no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, contra a Nova Zelândia. O time feminino estadunidense possui duas lésbicas, a meio-campista Megan Rapinoe e a treinadora, Jill Ellis.

A estudante Anne Karolynne, de 20 anos, nunca escondeu a preferência pelo esporte e sofre por causa disso desde a infância. Quando pedia para participar das partidas de futebol na escola, os garotos procuravam não manter contato com ela. “Mulher macho” foi uma das sentenças que Anne mais ouviu na infância e adolescência de outras meninas.

Algumas expressões “consagradas” no futebol, como “Tá com pé de moça?” e “E essa mão de moça?”, também sempre a incomodaram. Àquela época, um dos seus desejos era ser menino, porém a sobre si mesma mudou, depois de conhecer garotas que passavam pela mesma situação. Por causa do bom desempenho no futsal, Anne conseguiu bolsas em escolas particulares de Aracaju durante o ensino médio.

Para ela, o machismo no futebol ou no futsal é apenas uma das minúsculas opressões que as mulheres sofrem todos os dias. Numa das vezes que foi menosprezada antes de uma partida, ela ouviu frases do tipo: “Uma amiga? Lá é ‘baba’ [partida de futebol] para homem” e “E o pior é que a nega joga bem”.

Mesmo com os comentários machistas, ela preferiu participar do jogo. “Eu queria não ter que ter provado a ele que os ‘babas não são para homens’, só que ele tivesse apenas aceitado ou sei lá, lidado como qualquer outra pessoa, como qualquer um amigo dele”, escreveu no Facebook.

Esportes coletivos x esportes individuais

A maioria dos atletas que se assumem LGBTs é mulher. A Rio 2016, por exemplo, possuía 32 atletas lésbicas e 11 atletas gays. “Os homem devem ser mais desaprovados, rechaçados, especialmente em esportes coletivos”, afirma o professor doutor em Psicologia e coordenador do grupo de pesquisas e estudos Sexus UFS, Élder Cerqueira-Santos. Todos os atletas assumidamente gays da Rio 2016 praticam esportes individuais.

Segundo ele, o que pode diferenciar o número de atletas assumidos em esportes coletivos e individuais é a aceitação do grupo. Enquanto no futebol há casos raros de jogadores gays, na natação há mais exemplos de atletas assumidos. No Brasil, o goleiro Jamerson Michel da Costa, de 30 anos, é o único jogador de futebol gay assumido. A Rio 2016 possuía dois nadadores gays, ambos do Reino Unido.

De acordo com o professor, os estereótipos fazem com que deduzamos que no futebol feminino só haja lésbicas e que isso seja aceito socialmente. O estereótipo da mulher lésbica, diz ele, aproxima-se dos valores atribuídos aos esportes — força e virilidade, que são características, culturalmente, masculinas.

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Mulheres são maioria quando o assunto é sair do armário no futebol

Apesar de não corresponder à realidade, o homem que se assume homossexual se aproxima dos valores atribuídos à noção do feminino. A perda do ideal de virilidade e masculinidade colocaria o atleta gay numa posição inferior. “A discriminação por orientação sexual está diretamente ligada à discriminação por gênero. O machismo e a homofobia estão na mesma raiz”, reforça.

Um dos primeiros locais em que se inicia a distinção entre o feminino e o masculino no esporte é a aula de Educação Física. O principal argumento para essa divisão é biológico, afirma. Para ele, a escola reproduz um valor do mundo cultural adulto para as crianças. “Quando não tem diferenças claras entre meninos e meninas em termos de força física, já há uma naturalização da separação”, diz.

“Se ele assumir, ele sai do time”

O jornalista e ator Fernando Petrônio já manteve relações homoafetivas com jogadores dos times aracajuanos — Confiança e Sergipe — e do interior do estado, como o Itabianense. Todos os jogadores com os quais Fernando conviveu possuíam namoradas ou eram casados. Petrônio nunca se importou com o fato dos jogadores não se sentirem seguros para assumir publicamente a relação. “Se ele assumir, ele sai do time”, afirma.

As demonstrações preconceituosas dos jogadores só surgiam quando ele acompanhava os parceiros até o vestiário após as partidas, principalmente, se os atletas notassem que ele mantinha um relacionamento com um jogador do clube. Nos anos 2000, acompanhar os jogos não era um problema para Fernando, uma vez que ele não evidenciasse gestos afeminados que “denunciassem” a sua homossexualidade. “A gente não podia se expor”. Para assistir às competições nos estádios, Fernando ainda precisava manter contato e uma boa relação com os líderes das torcidas organizadas.

Segundo o professor Élder Cerqueira-Santos, os homossexuais afeminados estão na “linha de frente” das vítimas de homofobia pelo fato de eles se distanciarem mais do ideal de masculinidade. A competência de um atleta gay sempre será contestada, afirma Élder. O senso comum não a associa força à feminilidade. “Se aproximar do feminino é negativo”, indica.

Mesmo sem nunca ter sofrido violência física nos estádios, Fernando revela que se continha para não ser oprimido, o que, às vezes, era difícil. “A manifestação por um gol de um gay é diferente da de um hétero”, afirma.

Metrossexuais precisam reforçar a sexualidade

É comum encontrar notícias sobre o novo corte de cabelo do Cristiano Ronaldo ou a nova tatuagem do ex-jogador David Beckham em pesquisas na web. Ambos os atletas representam, para o professor Élder, o fenômeno dos metrossexuais que rompem com alguns ideais de masculinidade, mas precisam reafirmar a sexualidade com mais frequência.

A metrossexualidade seria utilizada para maximizar qualidades do masculino para que o público reconheça características de conquistador e sedutor nos atletas. Caso isso não ocorra, a sexualidade do jogador pode ser questionada. “Ele [David Beckham] se casou (…) Ele era o estereótipo do ‘macho alfa’, o que Cristiano Ronaldo não faz. Então, levantam-se questionamentos sobre a sexualidade dele”, diz o professor.

A mídia é uma das instituições que reforça e reproduz o ideal de homem viril e másculo no futebol, assim como a própria sociedade, os jogadores e torcedores. Segundo o coordenador do Sexus UFS, promover o debate sobre gênero não garante avanços na temática e rompimento de estereótipos. O senso comum tentaria polarizar e limitar ainda mais as noções de masculino e feminino como resposta à discussão.

Reportagem para a disciplina de Laboratório em Jornalismo Impresso II – setembro, 2016.

Fotos: John Soares.

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